Os Últimos Dias de uma Imprensa Agonizante.


Hoje, com alguma alegria, venho dar uma nota de falecimento: morreu o Jornal do Brasil.

Eu, que tenho mais de 30 e menos de 40, não posso deixar de ser solidário a esse jornal, que durante anos foi a única opção dos cariocas que não queriam pensar como o Roberto Marinho. Criado em 1891, esse veículo de informação e cultura faz parte da história do Brasil, pois foi um dos primeiros periódicos da capital do país – quando essa ainda era no Rio de Janeiro – e da história do povo carioca.

Desde cedo o jornal já era voltado a independência editorial. Foi o único jornal a desafiar o então presidente Floriano Peixoto (1891-1894), publicando o manifesto do contra-almirante Custódio de Melo, o que causou o primeiro fechamento do jornal, e que o então presidente mandasse caçar – vivos ou mortos – os responsáveis pela matéria, entre eles Rui Barbosa. Coisa de herói.

Mas a história desse grande jornal não acaba aí. Voltou a circular em 1894, em apoio a nova república, com a visão de trazer a público as reivindicações populares. Fez nome e se tornou símbolo dos ideais da imprensa.

Mas em 1964, o Jornal do Brasil fez a sua principal piada, derrapou em pleno dia primeiro de abril de 1964 – o dia em que Castelo Branco assume como primeiro ditador militar brasileiro – fez um editorial de apoio à ditadura militar. Poucos entenderam a sutileza da piada, mas a verdade é que durante um bom tempo – por motivo de sobrevivência – todos os jornais tiveram de se curvar ao poder da ditadura e seus aterrorizantes ditadores.

“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade … Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas.” (Editorial do Jornal do Brasil – Rio de Janeiro – 1º de Abril de 1964)

Muitos citam esse editorial como símbolo do apoio do Jornal do Brasil a ditadura, mas quem teve paciência de estudar esse período da nossa história sabe que este foi o comportamento de toda a imprensa livre. Nossos repórteres eram seres humanos, e como tal tinham medo de morrer. Não acredita? Leia esse belíssimo trabalho de pesquisa, que revela as manchetes dos principais jornais brasileiros no fatídico primeiro de abril:

http://blog.zequinhabarreto.org.br/2009/09/03/manchetes-do-dia-1-de-abril-de-1964/

O Jornal manteve-se fiel a ditadura militar até meados de 1974. A maioria dos outros jornais ficou ao lado dos ditadores por muito mais tempo. Alguns são fieis a ditadura até hoje.

O Jornal já vinha em crise desde 2001, mas sempre manteve sua postura de independência editorial, mesmo que as vezes apoiasse o lado errado, tinha coragem de manter suas opiniões e não baixar a cabeça para ninguém. Agora com a desculpa de “modernização” acabou com a sua versão impressa, mantendo apenas a versão on-line para os assinantes. Não colou. Todos nós sabemos que a circulação é muito baixa, e que o motivo de sua extinção é apenas econômico. Pagaram o preço da independência.

Certo ou errado, o importante é que um grande marco da história da imprensa livre se vai hoje.

Adeus Jornal do Brasil. Tenho certeza que você terá o mesmo destino do ex-presidente Figueiredo – O Esquecimento.

Anúncios

Sobre tremyen

Sou um milhonário exótico que curte falar besteiras pela internet.

Publicado em 31/08/2010, em Jornalismo, Politica, Tudão e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: